Instituto Superior Técnico

Núcleo de Arquivo

ABS – Alfredo Bensaude

 

Resumo da história biográfica

Alfredo Bensaude, ou Bem-Saude como, por vezes, também assinava, nasceu a 13 de Março de 1856 em Ponta Delgada, ilha de São Miguel, Açores.

O pai, José Bensaude (1836-1922), integrou a primeira geração nascida nos Açores, tinha uma avidez intelectual eclética: para além da grande curiosidade científica que transmitiu aos seus filhos, foi poeta e pertenceu ao círculo de escritores e poetas que contavam nos seus membros Antero de Quental.

A mãe, Raquel Bensliman (1836-1934), tinha dez anos quando a família se mudou de Lagos para os Açores. Numa altura em que a esmagadora maioria das mulheres portuguesas era analfabeta, Raquel detinha um nível de instrução pouco habitual para a época.

Bensaude foi o filho mais velho de quatro irmãos: Joaquim Bensaude (1859-1952), Esther Bensaude Oulman (1864-1965) e Raúl Bensaude (1866-1938).

Numa viagem a Versalhes, de visita à irmã, Alfredo conheceu a futura esposa, irmã de Camile Oulman, seu cunhado. Jeanne Oulman Bensaude (1863-1938), foi escritora de livros didácticos e infantis, alguns dos quais adoptados no ensino primário. Paralelamente, Jeanne Bensaude redigiu livros para a infância, com contos e “histórias de encantar”. Compôs uma ópera infantil inspirada na “Branca de Neve e os Sete Anões” e em histórias populares francesas.

Alfredo Bensaude e Jeanne Oulman Bensaude tiveram dois filhos: Matilde Bensaude (1890-1969), a primeira bióloga portuguesa, e José Emile Bensaude (1893-1992), educado na Alemanha e Suíça, emigrou para os Estados Unidos onde desempenhou um papel importante no transporte transatlântico durante a II Guerra Mundial, nomeadamente na criação da Base das Lajes dos Açores.

Em 1872, quando deixou São Miguel rumo à Alemanha, Alfredo Bensaude “…tinha particular interesse por coisas de história natural, coligia insectos, conchas, pedras, etc.”

Com dezasseis anos ingressou numa escola particular hebraica (Samson-Schule em Wolfenbüettel) tendo passado dois meses numa escola particular de Richmond (Inglaterra) devido a um surto de cólera.

Em 1874 iniciou a frequência dos preparatórios da Escola Superior de Hanôver onde aprofundou o interesse pelo estudo das Ciências da Terra. Em 1879 obteve o grau de engenheiro na Escola de Minas de Clausthal. Doutorou-se em 1881 na Universidade de Gotinga com a tese “Über den Analcim” (“Acerca da Analcima”)

Após uma curta experiência profissional no Sul de Espanha, Alfredo Bensaude ingressou, em 1881, no Serviço de Minas do Ministério das Obras Públicas, Comércio, Indústria e Agricultura”, sendo destacado em 1883 para a Comissão Geológica.

Em 1884, Bensaude inicia a sua carreira académica, data em que ganhou o concurso para o preenchimento de vaga de lente de Mineralogia e Geologia do Instituto Industrial e Comercial de Lisboa.

Nos últimos meses da existência do IICL, Bensaude assumiu a direcção do Instituto, tomando algumas diligências para a reforma do ensino aí ministrado. Na sequência do convite de Brito Camacho para a reorganização do ensino industrial, Bensaude, então director do Instituto Industrial e Comercial de Lisboa, apresenta o relatório preparatório da criação e definição do modelo de organização e gestão do IST.

Como professor e director do IST, de 1911 a 1920, Bensaude encontrou a oportunidade para renovar o modelo de funcionamento e os métodos de ensino da engenharia em Portugal.

Com as portas abertas pela legislação (Decreto n.º 163 de 14 de Julho de 1911), Bensaude recrutou professores, nacionais e estrangeiros, cuja actividade era de reconhecida competência, sendo que alguns não estavam ligados ao ensino.

Durante os dez anos seguintes lutou incansavelmente pela afirmação da instituição no panorama do Ensino Superior em Portugal, superando diversas dificuldades que quase levaram o Instituto ao seu encerramento.

Bensaude pautou o mandato como director do IST através de uma luta insistente pela atribuição de instalações condignas para a sua Escola. Contudo a falta de verbas impediu a construção das novas instalações para as quais chegou a existir um projecto arquitectónico de Miguel Ventura Terra.

Através da sua actividade académica, caracterizada por uma forte dedicação e sacrifício pessoal, como professor e director conquistou a admiração e respeito de quase todos que com ele lidaram. A 9 de Agosto de 1924 Alfredo Bensaude foi nomeado pelo Ministro do Comércio e Comunicações Director Honorário do IST, por proposta do Conselho Escolar do IST e do novo director Eduardo Ferrugento Gonçalves.

A bibliografia científica de Bensaude não é muito vasta, mas caracteriza-se por um elevado grau de e rigor e profundidade. Esta relativa escassez de publicações científicas deve-se, sobretudo, ao facto de se ter preocupado e dedicado, desde o início da sua carreira docente no IICL, com os aspectos pedagógicos da sua actividade profissional. A organização e direcção do IST iriam tomar grande parte da sua atenção.

Entre 1881 e 1905, os trabalhos científicos de Alfredo Bensaude versaram quase exclusivamente sobre mineralogia e cristalóptica, nomeadamente sobre o estudo de anomalias ópticas em cristais cúbicos, uma questão que despertou grande interesse no final do século XIX. Muitos desses trabalhos vieram na sequência da sua tese de doutoramento Über den Analcim (Acerca da analcima). Em 1884, submeteu a concurso, para preenchimento da vaga de lente da aula de Mineralogia e Geologia do Instituto Industrial e Comercial de Lisboa, a dissertação Da Incongruência entre a Observação e a Teoria em Alguns Cristais Cúbicos.

Outros temas relevantes na obra de Alfredo Bensaude foram o estudo de mineralizações de rádio e urânio, temas emergentes em Portugal nos anos 20 do século XX, e de objectos pré-históricos.

Alfredo Bensaude faleceu a 1 de Janeiro de 1941, na ilha de S. Miguel, Açores.

Datas extremas: 1864-1989

Condições de acesso: Documentos administrativos com regime de acesso generalizado e livre, no âmbito da legislação em vigor.

Projeto cofinanciado pela Fundação Calouste Gulbenkian no âmbito do concurso de recuperação, tratamento e organização do arquivo pessoal do Prof. Alfredo Bensaude. Foram objetivos gerais recuperar, tratar, organizar e preservar o património arquivístico de valor histórico-cultural do arquivo pessoal do Prof. Alfredo Bensaude, bem como promover a sua difusão e acesso ao cidadão, no contexto das novas tecnologias e da emergência da atual sociedade da informação.